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O FIO DAS PALAVRAS: UM CAMINHO PARA A CONSTRUÇÃO DO SUJEITO

Marlene Canarim Danesi
Crfª 0439/RS 

            A abrangência e a complexidade da Fonoaudiologia sempre é dimensionada, em sua verdadeira extensão e profundidade, por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar, porque ainda é uma profissão desconhecida, por mais da metade da população. Em segundo lugar, e ao mesmo tempo, porque a Fonoaudiologia tem como objetivo de estudo os problemas da comunicação humana, que sendo o traço peculiar que define o homem, uma forma distinta de interagir, inexistente   em  outros seres vivos, por si só, já requer muita informação em distintas áreas do conhecimento.

 

            Tratar os problemas da comunicação significa entender suas origens; compreender a construção do processo comunicativo; levar em consideração os fatores orgânicos, psíquicos, e sociais envolvidos nesta estruturação. E, principalmente, contextualizar as causas e o momento em que aconteceram as interferências, e as conseqüentes alterações da comunicação verbal e não verbal do indivíduo.

 

            O não verbal, espontâneo e inconsciente aparece no período pré-lingüístico, nos primeiros meses de vida, mas permanece para sempre, manifestando-se por sinais, como um olhar, um susto, um sorriso, um piscar de olhos, ... O verbal, deliberado e consciente, inicia efetivamente com a palavra, evoluindo para frases, chegando até o discurso escrito. Tanto na comunicação verbal, como a não verbal  são essenciais, em qualquer processo dialógico, que precisam ser entendidas e estimuladas nas terapias fonoaudiológicas.

 

            Esta extraordinária tarefa, que constitui o trabalho do fonoaudiólogo, determina que, cada vez mais, este profissional pretenda buscar a especialização, entre as distintas áreas da fonoaudiologia: voz, audição, motricidade oral e linguagem (oral e escrita). Além deste leque tão vasto de opções, o fonoaudiólogo ainda pode escolher trabalhar priorizando a prevenção ou a reabilitação, a fonoaudiologia escolar, a comunitária ou a hospitalar, ou ainda, centrando sua atuação na estética.

            Entretanto, esta diversidade de opções, não pode afastar o profissional do seu real objetivo. O fonoaudiólogo precisa lembrar, constantemente, que acima de qualquer técnica está a pessoa, atrás de qualquer atividade existe um indivíduo, que é um todo integrado e não partes. A fonoaudiologia não pode fragmentar esta totalidade, necessariamente tem que trabalhar em direção a  integração.

 

            O especialista em voz, por exemplo, tem que se aprofundar na aplicação de técnicas específicas que, sem dúvida, melhoram a qualidade vocal, que evitam  desgaste e o envelhecimento da voz, que minimizam ou solucionam patologias. Porém, este seu saber não pode obscurecer o fato de que, não menos importante que a fluência, é a mensagem que a voz carrega.

 

            O fonoaudiólogo, especialista em audição, tem a sua disposição uma imensa e sofisticada tecnologia, que surge em uma velocidade vertiginosa. O profissional precisa acompanhar esta evolução, conhecer e dominar os novos procedimentos, os novos aparelhos, para maior benefício do seu paciente. Mas também precisa levar em consideração que o som sem conteúdo, sem significado, não faz parte do processo comunicativo, sendo apenas uma seqüência de ruídos. Deve ser dada ênfase a utilização da tecnologia mais avançada, sem negligenciar a relação humana.

 

            O mesmo raciocínio se aplica ao especialista em motricidade oral. Falar de forma fluente, com clareza, boa articulação e ressonância, não só é importante, quanto desejável, desde que esta fala tenha significação para o autor do discurso e para seus interlocutores. É muito difícil apreciar e entender um comportamento isolado, mias dificultoso ainda é compreender uma fala sem sujeito ou sem destino.

 

            Considerando todas essa colocações é possível inferir que a base essencial, na qual se estrutura o trabalho do fonoaudiólogo, seja qual for sua especialização, é a valorização do discurso, do fio das palavras. É necessário entender como se processam os enlaces entre os pensamentos, as associações de idéias e os nexos, inevitáveis entre inteligência e afetividade.

 

            É preciso que o fonoaudiólogo tenha consciência que é através destes enlaces e destes nexos, que está a possibilidade do resgate da história e da estrutura do falante e do seu discurso, está também a possibilidade do sucesso terapêutico. É no discurso, é no entendimento do fio das palavras, que se constrói o caminho do vir a ser sujeito e de tornar-se cidadão. É  a linguagem que organiza e orienta as capacidades mentais, ela mediatiza a introjeção da imagem corporal, é fundamental para a constituição do ‘eu’ (eu posso, eu sei e eu quero).

  O trabalho do terapeuta da Linguagem vai muito além  de fazer   o paciente  falar  sem incorreções -  talvez  seja mais  fácil  e mais rápido   corrigir  alguém   que  fale errado ,porém   é  muito mais  difícil  e  muito mais relevante  procurar  compreender  a  lógica do   seu raciocínio.Trabalhar com linguagem significa compreender  que  seu desenvolvimento  tem que ser pensado enquanto processo histórico ,  e como tal  tem seu  fundamento na vida em sociedade,  ligado  à realidade da vida das pessoas , as  suas motivações ,  aos  conhecimentos   que constroem  e as  questões que elaboram.

 Nossa  função como terapeuta  de Linguagem [é  tornar  nossos  pacientes   seres   críticos  ,  dono   de  seus   próprios   discursos , com  capacidade  de ouvir  mas principalmente  com motivações   para dizer   o  que  pensam  de transmitir suas idéias .A construção da linguagem  é a tentativa   de assemelhar   palavras  e vivencias ,  com  fluidez de movimento ,   e  não de  forma  fixa e rígida .E   o papel do   profissional responsável pelos problemas da comunicação é ajudar o paciente a evocar   suas experiências  , organizá-las   e transformá-las,  mas  essencialmente    é  ir  atrás do  fio das palavras do  paciente para   que   ele  consiga  encontrar   o nexo  existente  entre elas  e finalmente  seja capaz  de  construir  seu caminho, como falante e como sujeito.


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